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domingo, 4 de março de 2007

Ainda o conto

O menino que escrevia versos

De que vale ter voz
Se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
Se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(Versos do menino que fazia versos)

- Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
- Há antecedentes na família?
- Desculpe, doutor?
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Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para a escola do miúdo da escola. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
- São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia de tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias.
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D. Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, que ele fosse examinado.
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Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado de clínico se dirigiu ao menino:
- Dói-te alguma coisa?
- Dói-me a vida, doutor
.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está a ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo.
- E o que fazes quando te assaltam essas dores?
- O que sei fazer, excelência.
- E o que é?
- É sonhar



COUTO, Mia – O fio das missangas (pag.133-137) . Lisboa: Caminho, 2004

sexta-feira, 2 de março de 2007

Sugestões de leitura - o conto

O fresco
Chamavam-lhe o Enjeitado, mas não era alcunha. Era mesmo do nome, quere-se dizer, dele. Havia lá na aldeia um velho que era uma espécie de memória colectiva. De modo que sabia tudo de tudo. E quando ele lá apareceu, explicou. O bisavô ou o pai dele, quer era portanto o trisavô, fora mesmo um exposto da misericórdia da vila. E então esse tal trisavô ou o filho dele, como toda a gente lhe chamava assim adoptou o nome para acabar com alcunha.
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O nome dele era Roberto Enjeitado Feliz. Chamavam-lhe Senhor Roberto, que também não era um primor. Do pai ou do avô tinha-lhe vindo uma casa, já fora da aldeia. Mas passavam-se anos que ninguém a vinha habitar.
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Até que um dia veio ele.
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Como era novo na aldeia, as pessoas andavam inquietas, à espera que se desse ao convívio para tudo ser normal e corriqueiro. Mas não…

Este conto faz parte do livro Uma esplanada sobre o mar de Vergílio Ferreira